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Quinta-feira, Novembro 11, 2010

A rima do marinheiro maldito

A névoa tomara conta dos sete mares naquela noite de inverno
nada podia-se ver que não um pálido esboço de um Lua cheia
e nada podia-se ouvir que não a canção sepulcral da meia-noite
Decidimos parar de navegar enquanto a névoa tecia sua teia
E o frio era mais do que severo com seus ares de açoite
O capitão mostrava-se receoso de ser essa nossa última viagem
então separou seu violino e verificou a afinação.
Não que não confiasse em seus pulmões resistentes à friagem,
que tantas vezes viajara de norte a sul nessa estação
mas seus sonhos havia dias não o deixavam em paz
e em todos eles a data daquele dia mostrava-se com clareza
e nosso capitão, por todos conhecido como audaz
novamente isolava-se a permitir que o álcool despeitasse sua destreza.
A nevoa que nos rodeava clareava-se com a Lua
Parados sem saber aonde, a solidão era nossa maior companhia
e a noite tão sombria dançava, lenta e nua
E cada um guardou o segredo, achando que sabia o que fazia
Mas como poderíamos, se de tudo vimos e nada tememos?
Repletos de jóias deliciávamos nossos olhos e mãos
apenas lembrando os dias amargos que tivemos
e a vida que abandonamos, nossas esposas, nossos irmãos
Em busca de riquezas e de um vida mais grata para nossas famílias
cruzamos os sete mares cantamos e conquistamos
dominamos, planaltos, planícies e ilhas
E, com nosso suor muitas riquezas angariamos.
Havia muitas noites o capitão não dormia, pois os olhos não permitiam
Perseguindo-o como bestas fazem com suas presas
e hoje, o dia prometido lembrava-nos das horas que partiam
sem pressa e sem retorno, sem dúvidas nem certezas.
Então aquele grito cortou a escuridão
Como crianças, sentimos nossas peles se arrepiarem
Não podíamos ver de onde vinha, tamanha a desolação
mas sabíamos que se aproximavam por sentir os mares se agitarem
Lentamente sua silhueta se insinuava a estibordo
Menos de trezentos pés nos separavam
Velas rasgadas, casco quebrado, não parecia haver ninguém à bordo
homens, cheios de medo se contorciam e em silêncio gritavam
mas uma pequena áurea de claridade no convés se formava
tão azul como a própria lua, tão terrível como a própria maldição
E tudo se tornava nítido enquanto ela se aproximava
Uma criatura de túnica preta e capuz assumia a direção
E cada um daqueles muitos olhos para nossa alma olhava
e eles brilhavam como os olhos do demônio mais sombrio
congelando até o último sopro de vida que restava
seduzindo-nos com aquele estranho calafrio
Como num transe, todos simplesmente deixamos de pensar
deixamos de sentir, esquecemos de perceber o tempo passar
No dia seguinte tudo passara, e cada alma viva no navio desaparecera
Exceto eu, que planejara o roubo do templo proibido
Permanecia em pé, com meu pai, o capitão em meus braços
Que, sem soltar seu violino, mantinha sua boca em meu ouvido
E, mesmo que não houvesse vida em seu pálido corpo
Eu podia ouví-lo dizer que tudo estava acabado
Que tinha orgulho de ter navegado a meu lado
Mesmo que, em minha petulância eu não tenha escutado seu sexto sentido
Pois velhos lobos do mar sempre sabem a mensagem contida
Em templos como aquele, por algum motivo proibido
E ele sabia que o preço para a petulância seria sua vida
Eu sobrevivi ao terror daquela noite, que tornou-se minha sina
Hoje ensino após ter com ela tantos anos convivido
sempre tremendo de medo ao ver neblina
lembrando-me da tripulação do navio do templo proibido.

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